
Cada bueiro da cidade é limpo só 2 vezes por ano
Em cinco anos, nas gestões José Serra/Gilberto Kassab, foram feitas 3,8 milhões de limpezas nas 397 mil bocas-de-lobo da capital. Para especialistas, falta de manutenção sobrecarrega sistema de drenagem, aumentando o risco de enchentes
FELIPE ODA, felipe.oda@grupoestado.com.br
Cada bueiro da cidade é limpo em média duas vezes por ano pela Prefeitura de São Paulo. Entre 2005 e 2009, o governo municipal afirma ter realizado 3,8 milhões de limpezas nas 397 mil bocas-de-lobo da capital. Especialistas afirmam que a falta de manutenção constante sobrecarrega o já defasado sistema de drenagem de águas pluviais de São Paulo, aumentando o risco de enchentes na cidade. Já a Secretaria de Coordenação das Subprefeituras diz que a média calculada pela reportagem do Jornal da Tarde é “falha”, pois não necessariamente uma boca-de-lobo é visitada pelas equipes de manutenção mais de uma vez ao ano (leia texto abaixo). Desde o início de dezembro, quando a cidade passou a sofrer alagamentos consecutivos, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) tem afirmado que as enchentes na capital se devem principalmente à natureza, e não a eventuais falhas na coleta e varrição de lixo e a falta de investimentos . “O que aconteceu ontem (segunda-feira, dia 4) foi chuva, foi água. (A cidade) está se preparando, está investindo e vai continuar investindo (no controle de enchentes)”, disse, um dia após a cidade enfrentar ruas e túneis alagados. A limpeza das 397 mil bocas-de-lobo da cidade é feita manualmente ou com o auxílio de máquinas. Cada uma das 31 subprefeituras é responsável pela manutenção de sua área e definição da periodicidade do serviço. As marginais do Pinheiros e do Tietê são de responsabilidade da Superintendência das Usinas de Asfalto, órgão também ligado à Secretaria de Coordenação das Subprefeituras. A assessoria da pasta contesta a média de duas limpezas anuais a cada bueiro, afirmando que ao menos uma vez ao ano eles são limpos e desobstruídos, o que pode tornar o período entre as visitas das equipes ainda maior. O tamanho, localização, tráfego da via e as chuvas são critérios utilizados para a definição do número de limpezas anuais de cada bueiro. As bocas-de-lobo de vias como as ruas 25 de Março, no centro, e Girassol, na Vila Madalena, zona oeste, são limpas uma vez por semana. Já a manutenção da Avenida Inajar de Souza, na Casa Verde, zona norte, ocorre de três a quatro vezes ao ano. “A responsabilidade é da Prefeitura e não de são Pedro. Claro que o lixo e o volume de chuvas contribuem, mas o problema está na coleta ineficiente, na quantidade insuficiente de funcionários para executar o serviço de limpeza e no sistema de drenagem que não tem mais capacidade. E os bueiros sujos são apenas a ponta do problema. Atribuí-lo à água é de uma simplicidade”, diz Júlio Cerqueira Cesar Neto, ex-professor de Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica da USP. DrenagemPara manter em funcionamento o sistema de drenagem, estrutura que, basicamente, recebe e conduz as águas pluviais até o Rio Tietê, a Secretaria das Subprefeituras afirma que também realiza manutenção nos 57 mil poços de visita, 280 córregos, 19 piscinões e 2.850 quilômetros de ramais e galerias na cidade. Só dos piscinões, a Prefeitura diz ter retirado 956 mil metros cúbicos de detritos nos últimos cinco anos; limpado 2.371 quilômetros de extensão de córregos e 3,02 mil km de galerias e ramais subterrâneas. Operações “cata-bagulho”, para a coleta de entulho, completam as ações de manutenção. Em 2.339 visitas, o programa recolheu 72,4 mil toneladas de materiais. “O lixo é sempre o mais evidente nas enchentes. No entanto, há outros fatores que contribuem com os alagamentos. A população ingenuamente acredita que é a maior culpada, por jogar lixo nas ruas, pelas enchentes. Claro que a sujeira colabora, mas a parcela (de responsabilidade) é menor”, afirma Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo e ex-diretor da Divisão de Geologia do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT-SP).
Jornal da Tarde de 7 de janeiro de 2010
Nenhum comentário:
Postar um comentário