
O martírio diário de atravessar a Rebouças
Corredor exclusivo de ônibus é considerado o pior da cidade, segundo pesquisa da ANTP. Em alguns pontos, a lentidão só não é maior graças aos agentes de apoio.
Álvaro Magalhães - 20/12/2009 - 19h47
Masao Goto Filho/e-SIM
Agente operacional organiza o embarque no ônibusNo vaivém dos ônibus que sobem e descem a avenida Rebouças passam, todos os dias, 505 mil pessoas. O corredor, considerado o pior da cidade, completou cinco anos neste semestre – tempo suficiente para os elogios dos primeiros dias cederem lugar às queixas. As complicações constantes no tráfego, especialmente no cruzamento com a avenida Faria Lima, deram origem a uma nova profissão: o agente de "apoio operacional".
Todas manhãs e tardes, ali no ponto, é a mesma coisa. Jean Alves, 21, corpulento, vestido com um colete fosforescente, encosta na porta de entrada dos ônibus que estacionam para o embarque de passageiros. Ele tenta organizar a fila. Dentro, a condução já parece lotada. Fora, ninguém dá sinais de que prefere esperar a próxima.
"Pessoal, vamos agilizar também para o lado do motorista." Jean fala um pouco na gíria, mas sempre com educação. "Por gentileza, pessoal, só tem mais quatro pessoas para entrar." Depois, faz uma ameaça sutil. "Por favor, por favor... o semáforo vai abrir, eu vou ter de liberar o ônibus." Quem ainda não entrou se apressa. Alguns ficam na plataforma e terão de esperar outro veículo. Jean faz um gesto ao motorista e o ônibus parte.
Semáforo – Toda vez que o semáforo abre e Jean dá o sinal, apenas três conduções passam rumo à ponte Eusébio Matoso. Nunca mais que isso. É um problema histórico. Como a plataforma de embarque e desembarque só tem 36 metros, apenas três ônibus (cada um com seus 10 metros) conseguem estacionar ali simultaneamente. São esses três que cruzam a Faria Lima a cada abertura de farol. Os que vêm atrás precisam parar antes de atravessar o semáforo. E até que o embarque termine, o farol já fechou.
O gargalo causa um acúmulo de ônibus no cruzamento. Em dois dias de reportagem, sempre no horário de pico, a reportagem do Diário do Comércio chegou a contar 19 conduções enfileiradas antes do cruzamento.
Como o semáforo abre a cada minuto e meio, o último ônibus da fila levou 13 minutos para passar pelo local. A média no trecho foi de 5 Km/h – praticamente a velocidade de uma pessoa caminhando.
O próprio motorista se queixa. "É muito cansativo para nós", diz o condutor, que pediu para não ser identificado. "Tem que ficar engatando marcha a vida toda, bom é quando o trânsito está livre." Naquele momento, em todo o corredor, o site da São Paulo Transporte S.A. (SPTrans) registrava velocidade média de 14 Km/h.
Essa situação levou Sandra Vieira, 57 anos, a desistir. Há 30 anos, ela atravessa a Rebouças de ponta a ponta, duas vezes por dia. Ela trabalha no Hospital das Clínicas e mora no Jardim Monte Kemel, zona sul de São Paulo. Costumava pegar o ônibus de itinerário Campo Limpo até a avenida Francisco Morato. Mas agora prefere o que vai para o Shopping Continental. "Como esse ônibus (Continental) vira na Faria Lima, ele pula essa parada."
Sandra calcula que passou a economizar quase meia hora com o novo caminho. Antes, ela até preferia descer a Rebouças a pé quando era dia de chuva. "Pegava o guarda-chuva e ia embora, atravessava a avenida todinha, até a ponte Eusébio Matoso." Sandra diz que, apesar da mudança no trajeto, o pequeno trecho que ela ainda pega na Rebouças é a pior parte da viagem. E não é a única a se queixar.
Pesquisa – Em toda a extensão da Rebouças, os usuários ouvidos pelo Diário do Comércio reclamam. A última pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), realizada no final do ano passado, confirma: o corredor da Rebouças é considerado o pior da cidade. De acordo com a enquete, só 42% dos usuários ouvidos aprovaram a passagem exclusiva. No início de 2010, uma nova pesquisa deve ser divulgada pela associação.
Especialistas em trânsito divergem sobre a solução para o problema. Ivan Whately, conselheiro do Instituto de Engenharia de São Paulo, acredita que o problema é o tempo de abertura do semáforo. "Pelo que eu conversei com técnicos da CET, em princípio não é necessária uma grande obra."
Já Cyro Vidal, diretor do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) nas décadas de 1980 e 1990, aponta a passagem de nível sob o cruzamento como a fonte do transtorno. "O túnel não deveria ser na Rebouças, mas na Faria Lima. Ela é mais larga." Segundo Vidal, ampliar a plataforma dos ônibus aliviaria o tráfego. "Mas é uma solução pontual. A Rebouças tem diversos problemas."
Camelôs – Quem gosta dos problemas são alguns camelôs, que aproveitam, no fim da tarde, os pontos lotados. "Acho que tiro quase R$ 50 quando paro aqui", diz Ana Eliza dos Santos, 49. Ela vende chocolates e costuma passar na parada da avenida Brasil. "Acho que o povo fica com fome de tanto esperar o ônibus e acaba comprando", acredita. Ali, não há agentes de apoio operacional, como Jean, para ajudar as pessoas a subir no ônibus.
José Pedro Diniz, 58 anos, sente falta dos agentes. "Às vezes, a gente tem de esperar dois ou três ônibus para poder embarcar." Diniz usa muleta. Na parada Faria Lima, Jean pede que os usuários dêem preferência aos deficientes e gestantes.
"Pessoal, por gentileza, tem duas senhoras com bebê de colo aqui: quem estiver em assento preferencial, por favor, dê lugar a elas", avisava no momento em que a equipe de reportagem havia chegado ao ponto de ônibus.
Jean não é propriamente um funcionário da SPTrans. Foi contratado por um dos consórcios de ônibus que operam na avenida para acelerar o embarque nos horários de pico. Trabalha todo dia útil, das 6h às 10h e das 16h às 21h.
"É um serviço que deveria ter em todo ponto", diz Cíntia Cristina, 24 anos. "Você precisa ver quando chega o (ônibus) Parque do Engenho, não há quem possa entrar", afirma, referindo-se à linha que costuma tomar. "Se não fosse esse rapaz, não sei o que aconteceria."
Corredor exclusivo de ônibus é considerado o pior da cidade, segundo pesquisa da ANTP. Em alguns pontos, a lentidão só não é maior graças aos agentes de apoio.
Álvaro Magalhães - 20/12/2009 - 19h47
Masao Goto Filho/e-SIM
Agente operacional organiza o embarque no ônibusNo vaivém dos ônibus que sobem e descem a avenida Rebouças passam, todos os dias, 505 mil pessoas. O corredor, considerado o pior da cidade, completou cinco anos neste semestre – tempo suficiente para os elogios dos primeiros dias cederem lugar às queixas. As complicações constantes no tráfego, especialmente no cruzamento com a avenida Faria Lima, deram origem a uma nova profissão: o agente de "apoio operacional".
Todas manhãs e tardes, ali no ponto, é a mesma coisa. Jean Alves, 21, corpulento, vestido com um colete fosforescente, encosta na porta de entrada dos ônibus que estacionam para o embarque de passageiros. Ele tenta organizar a fila. Dentro, a condução já parece lotada. Fora, ninguém dá sinais de que prefere esperar a próxima.
"Pessoal, vamos agilizar também para o lado do motorista." Jean fala um pouco na gíria, mas sempre com educação. "Por gentileza, pessoal, só tem mais quatro pessoas para entrar." Depois, faz uma ameaça sutil. "Por favor, por favor... o semáforo vai abrir, eu vou ter de liberar o ônibus." Quem ainda não entrou se apressa. Alguns ficam na plataforma e terão de esperar outro veículo. Jean faz um gesto ao motorista e o ônibus parte.
Semáforo – Toda vez que o semáforo abre e Jean dá o sinal, apenas três conduções passam rumo à ponte Eusébio Matoso. Nunca mais que isso. É um problema histórico. Como a plataforma de embarque e desembarque só tem 36 metros, apenas três ônibus (cada um com seus 10 metros) conseguem estacionar ali simultaneamente. São esses três que cruzam a Faria Lima a cada abertura de farol. Os que vêm atrás precisam parar antes de atravessar o semáforo. E até que o embarque termine, o farol já fechou.
O gargalo causa um acúmulo de ônibus no cruzamento. Em dois dias de reportagem, sempre no horário de pico, a reportagem do Diário do Comércio chegou a contar 19 conduções enfileiradas antes do cruzamento.
Como o semáforo abre a cada minuto e meio, o último ônibus da fila levou 13 minutos para passar pelo local. A média no trecho foi de 5 Km/h – praticamente a velocidade de uma pessoa caminhando.
O próprio motorista se queixa. "É muito cansativo para nós", diz o condutor, que pediu para não ser identificado. "Tem que ficar engatando marcha a vida toda, bom é quando o trânsito está livre." Naquele momento, em todo o corredor, o site da São Paulo Transporte S.A. (SPTrans) registrava velocidade média de 14 Km/h.
Essa situação levou Sandra Vieira, 57 anos, a desistir. Há 30 anos, ela atravessa a Rebouças de ponta a ponta, duas vezes por dia. Ela trabalha no Hospital das Clínicas e mora no Jardim Monte Kemel, zona sul de São Paulo. Costumava pegar o ônibus de itinerário Campo Limpo até a avenida Francisco Morato. Mas agora prefere o que vai para o Shopping Continental. "Como esse ônibus (Continental) vira na Faria Lima, ele pula essa parada."
Sandra calcula que passou a economizar quase meia hora com o novo caminho. Antes, ela até preferia descer a Rebouças a pé quando era dia de chuva. "Pegava o guarda-chuva e ia embora, atravessava a avenida todinha, até a ponte Eusébio Matoso." Sandra diz que, apesar da mudança no trajeto, o pequeno trecho que ela ainda pega na Rebouças é a pior parte da viagem. E não é a única a se queixar.
Pesquisa – Em toda a extensão da Rebouças, os usuários ouvidos pelo Diário do Comércio reclamam. A última pesquisa da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), realizada no final do ano passado, confirma: o corredor da Rebouças é considerado o pior da cidade. De acordo com a enquete, só 42% dos usuários ouvidos aprovaram a passagem exclusiva. No início de 2010, uma nova pesquisa deve ser divulgada pela associação.
Especialistas em trânsito divergem sobre a solução para o problema. Ivan Whately, conselheiro do Instituto de Engenharia de São Paulo, acredita que o problema é o tempo de abertura do semáforo. "Pelo que eu conversei com técnicos da CET, em princípio não é necessária uma grande obra."
Já Cyro Vidal, diretor do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) nas décadas de 1980 e 1990, aponta a passagem de nível sob o cruzamento como a fonte do transtorno. "O túnel não deveria ser na Rebouças, mas na Faria Lima. Ela é mais larga." Segundo Vidal, ampliar a plataforma dos ônibus aliviaria o tráfego. "Mas é uma solução pontual. A Rebouças tem diversos problemas."
Camelôs – Quem gosta dos problemas são alguns camelôs, que aproveitam, no fim da tarde, os pontos lotados. "Acho que tiro quase R$ 50 quando paro aqui", diz Ana Eliza dos Santos, 49. Ela vende chocolates e costuma passar na parada da avenida Brasil. "Acho que o povo fica com fome de tanto esperar o ônibus e acaba comprando", acredita. Ali, não há agentes de apoio operacional, como Jean, para ajudar as pessoas a subir no ônibus.
José Pedro Diniz, 58 anos, sente falta dos agentes. "Às vezes, a gente tem de esperar dois ou três ônibus para poder embarcar." Diniz usa muleta. Na parada Faria Lima, Jean pede que os usuários dêem preferência aos deficientes e gestantes.
"Pessoal, por gentileza, tem duas senhoras com bebê de colo aqui: quem estiver em assento preferencial, por favor, dê lugar a elas", avisava no momento em que a equipe de reportagem havia chegado ao ponto de ônibus.
Jean não é propriamente um funcionário da SPTrans. Foi contratado por um dos consórcios de ônibus que operam na avenida para acelerar o embarque nos horários de pico. Trabalha todo dia útil, das 6h às 10h e das 16h às 21h.
"É um serviço que deveria ter em todo ponto", diz Cíntia Cristina, 24 anos. "Você precisa ver quando chega o (ônibus) Parque do Engenho, não há quem possa entrar", afirma, referindo-se à linha que costuma tomar. "Se não fosse esse rapaz, não sei o que aconteceria."
Diário do Comércio de 20 de dezembro de 2009
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